Nos últimos anos, Portugal tornou-se um dos maiores exportadores mundiais de canábis medicinal. O clima favorável, a localização estratégica como porta de entrada na Europa e um enquadramento regulatório que levou à aprovação de inúmeros pedidos de cultivo pelo Infarmed colocaram o país no radar das grandes empresas internacionais. “Este estatuto resulta de uma conjugação de fatores económicos, geográficos e climáticos. A produção atinge níveis muito satisfatórios e é aliciante face aos lucros que as empresas depois obtêm”, explica Carla Dias.
Para o Observatório Português de Canábis Medicinal, o problema central reside no modelo de negócio de muitas empresas instaladas no país, focadas exclusivamente no cultivo e exportação, sem intenção de levar a matéria-prima até à fase final do medicamento disponível nas farmácias nacionais. “O nosso objetivo é que as empresas licenciadas tenham sempre a intenção de introduzir a sua matéria-prima no mercado nacional, para fazer chegar o medicamento ao doente português”, salienta. Esse percurso implica custos elevados, múltiplos trâmites legais e uma resposta contínua às exigências do Infarmed – um esforço que nem todas as empresas estão dispostas a assumir.
O nosso objetivo é que as empresas licenciadas tenham sempre a intenção de introduzir a sua matéria-prima no mercado nacional, para fazer chegar o medicamento ao doente português
A missão do OPCM é sobretudo científica e educativa. Embora a investigação em canábis medicinal exista em Portugal, “faz-se pontualmente e com muita dificuldade”, devido à forte regulamentação. Assim, o foco tem sido a formação: “o que temos feito essencialmente é a parte da educação, no apoio aos médicos, farmacêuticos e outros profissionais de saúde”, explica a presidente.
A Conferência Nacional de Canábis Medicinal, realizada anualmente, é o maior exemplo desse esforço contínuo. “Há uma necessidade muito grande de formação, porque é uma terapêutica nova e os clínicos precisam de informação para ajudar melhor os seus doentes”. A próxima conferência ainda sem data prevista, pretende apostar numa forte componente prática, com partilha de casos reais, dosagens e experiências clínicas. “É um momento de partilha muito prático, para que cada profissional possa depois voltar ao seu local de trabalho e ajudar os seus doentes”, revela.
O observatório assume também um papel ativo junto dos doentes, encaminhando-os para médicos especializados e ajudando a quebrar estigmas. “Atualmente, os preconceitos já são muito poucos. Ainda acontece um ou outro caso, mas é raro”, afirma.
A investigação continua a enfrentar entraves regulatórios e burocráticos, mas o maior desafio, segundo o observatório, é garantir o acesso. Atualmente, existem 11 preparações disponíveis nas farmácias, um avanço significativo face a 2021, quando existia apenas uma. Ainda assim, nenhuma é comparticipada. “Há muitos doentes que não conseguem sequer iniciar o tratamento porque é muito dispendioso”, alerta Carla Dias, defendendo que, sendo uma terapêutica de última linha, a canábis medicinal também deveria ser comparticipada.
Entre o sucesso da exportação e a urgência do acesso terapêutico, o futuro da canábis medicinal em Portugal deve centrar-se apenas nos doentes.
Autor: Carla Dias
Fonte: Valor Magazine
Artigo Original: Aqui